sábado, junho 19

Sierra nevada del Cocuy, pico El Concavo (5200 mt) - Colombia

TEXTO JAIME PABA

.....focava a atenção nas pegadas dos meus companheiros um pouco mais acima e na presença do Alex ao lado, me dando forças para continuar. Parecia estar medindo a distância ate o cume do jeito que se mede o gol antes de começar uma pelada....... fiz uma pausa, respirei, gritei pro Diego diminuir o ritmo mas ele não escutou. Voltei a caminhar enquanto um sabor salgado vazava dos meus óculos escuros.



.........................El Cocuy, praça central com réplica da serra

Caminhando ansioso pelas ruas do El Cocuy, esperando encontrar com os guias da jornada, cruzei com uma camionete cheia de equipamentos e de gente. De uma das janelas Alex esticou seu braço e me deu as boas vindas ao grupo. Mais tarde, na praça da vila, terminei conhecendo a maioria dos que seriam os meus parceiros no curso de escalada em neve e com quem, se tudo saísse bem, atacaríamos um dos cumes da Sierra Nevada El Cocuy a 5200 metros de altura. Dos guias eu só conhecia o Alex, com quem tínhamos feito uma pequena escalada em rocha dias atrás. De Lucho, Fifo e Rafa eu não sabia quase nada. A surpresa da noite foi que o prefeito da cidade convidou o pessoal para dar uma palestra na praça central sobre a escalada ao Everest, realizada alguns meses atrás por eles. Lucho tomou a palavra e durante uns rápidos 40 minutos contou suas peripécias técnicas e financeiras para poder atingir o “teto do mundo” sem oxigênio, para orgulho de todos os “paisanos”. Antes de deitar reparei que, sei lá por que sorte, passaria os próximos dias com uns malucos casca grossa de montanha. Além dos quatro instrutores éramos mais seis escaladores na expectativa de uma experiência na neve e gelo de altura.



A turma. De esquerda para direita, Fifo, Lucho, David, Alex, Diego, ____, Sofia, Rafa, Santiago, ____ e Jaime. Perdi na minha cabeça o nome de dois companheiros, me desculpem


No dia seguinte chegamos de carro ao ponto de inicio do trekking, a fazenda “La Esperanza” (a 3.500 mts de altitude) onde após uma curta conversa técnica começamos o ascenso ao acampamento base. Cada um fez o percurso em ritmo livre e eu fui aproveitando para ir devagar, desfrutando da paisagem e esperando que isto me levasse a uma paulatina adaptação à altura. Após 4 h de caminhada eu estava chegando ao local combinado (4.300 mts altitude), cinquenta minutos depois que os meus companheiros. A pesar de ter subido em boas condições, a trilha não é difícil e o peso maior tinha sido despachado em animais, os efeitos da mudança de altitude começaram a se deixar notar. Em pouquíssimo tempo eu passei quase da normalidade para condições ruins. Não podia comer, a náusea era constante assim como o vômito. Deitado minha freqüência cardíaca era de 140 bpm. No meio do mal-estar geral eu comecei a pensar na minha situação no ano anterior, onde pelos mesmos sintomas tive que retornar de outra empreitada antes de chegar ao cume............adormeci. Acordei com outra cara e a pesar que a minha freqüência cardíaca não havia quase mudado eu já tinha certeza de que teria chance de ficar e tentar. Após um primeiro dia deitado, os três dias seguintes foram dedicados a práticas básicas de escalada em rocha e gelo (nós, encordoamento, auto-resgate, etc). Cada uma delas exigia uma boa caminhada e deslocamento para as partes superiores da montanha onde o branco começava a aparecer depois de um mar infinito de pedras (pois eh, o acampamento parecia muito com a superfície de Marte). Em cada prática eu sentia que meu rendimento embora tecnicamente fosse bom, fisicamente estava bem inferior à meia do grupo. As subidas e descidas eram agotadoras mas o astral da turma e as coisas que estávamos aprendendo superavam o cansaço.


................Inicio do trekkin´. o acampamento base está próximo à seta



....................O acampamento base. A lagoa será vista desde o cume




.......................Vista 2 do acampamento. Pedra pra tudo lado!

O Acidente
No quarto dia, enquanto descansávamos no acampamento base, chegaram alguns excursionistas com um pedido de socorro. Alguém tinha escorregado da neve no alto até as rochas do outro lado da lagoa onde nós estávamos. Em poucos minutos uma parte do grupo encabeçada por Lucho, Raffa e Fifo partiu para o local. O restante ficou à espera e observando de longe a tarefa de resgate. A vítima era uma garota que desprevenida entrou na neve e sem ter equipamento nem experiência escorregou por tal vez uma centena de metros até as pedras na base da montanha. O resultado foi traumatismo craniano, uma perna fraturada e escoriações diversas. O pessoal carregou a menina até o acampamento base e dali, montanha abaixo, até o local mais próximo onde uma ambulância a levaria até o Hospital. O restante do grupo ficou no acampamento refletindo sobre os acontecimentos e se ainda tentaríamos atingir o cume no dia seguinte depois daquela situação.........decidimos ir


.................................O acampamento base com o pico ao fundo



................................................Borde de neve




...............................Intervalo pra raspadinha durante as práticas

A subida
Acordamos após poucas horas de sono, colocamos o equipamento nas costas e iniciamos a caminhada pulando entre as pedras até atingir o borde de neve da montanha. Ali após longos minutos de preparação nos encordoamos, “cramponeamos” e saímos em duas cordadas. Em pouco tempo minha respiração tornou-se ofegante e o coração batia ao ritmo de matraca descontrolada, o mesmo de um ano atrás. As cordadas se desenvolviam facilmente más depois de um tempo a minha começou a se deter com alguma freqüência e a razão é que o último escalador amarrado (eu) ia muito devagar. Eu por outro lado achava que estávamos indo muito rápido, que não tinhamos cita marcada com ninguém lá encima. A medida que minha freqüência respiratória e cardíaca aumentavam, minha velocidade diminuía. Rapidamente passei do esforço esportivo para o sofrimento e uns instantes depois para a preçe. A escalada tornou-se um mantra interminável e a única função deste era me manter caminhando sem pensar em outra coisa que não fosse simplesmente subir enquanto contava cada passo a repetição. A escalada do El Cóncavo é na verdade um trekking técnico em neve-gelo com algumas inclinações pronunciadas. Após pouco mais de duas horas de exaustão chegamos à arista que precede o cume. Ali enfiamos os piolets fazendo uma pequena travessia de uma parede de talvez 1m de largura onde ao nos assomarmos encontramos uma queda vertical de centenas de metros. Simplesmente assustador, mas o cansaço superava o medo e eu passei por ai à procura de um “sofá” onde finalmente descansar. No cume batemos a foto oficial, meus companheiros ligaram para seus parentes, comeram raspadinha com leite moça, bateram mais fotos, enquanto eu sentado esperava simplesmente a hora de voltar contemplando lá longe nossa base de saída. A descida foi rápida e tranqüila e duas horas após ter atingido o topo da montanha e morto de cansaço, entrei na minha barraca e me enfiei no saco de dormir. Nesses curtos instantes prévios ao sono é que tive o prazer de dizer para mim que finalmente tinha conseguido.........e dormi profundamente como não o fazia desde o inicio da expedição.




......................................................A encosta




.................................No cume do El Côncavo (5.200 mts)




...............................................Vista desde o cume




............................Acampamento base (que não se vê) ao lado da lagoa




..................................................Descendo



Obs. No dia em que atingimos o cume mais um acidente aconteceu em condições e local idênticos. Posteriormente, de volta à minha cidade, em um dia de escalada em rocha, presenciei um terceiro acidente (fissura de bacia após queda durante a progressão numa fenda). Dessa vez conseguimos ter uma participação mais ativa no resgate. O particular foi que o escalador machucado me reconheceu quando o fixamos na maca: ele tinha ajudado a carregar aquela menina lá no nosso acampamento uns poucos dias atrás.



..............................................de volta à barraca

A Sierra Nevada de El Cocuy esta localizada entre os estados de Santander e Cundinamarca na Colômbia, de onde o autor é natural. Se alguém se interessar em como chegar lá é só me convidar para um café com leite que eu conto tudo.
Em relação ao mal de altura, não posso dizer ainda se é que o troço é muito bravo o eu sou particularmente suscetível. Eu estava com bom preparo físico, alternando ciclismo com escaladas em Curitiba. Mas quando cheguei lá encima parecia que tivesse ficado de engorde por uns cinco anos. De outro lado o pessoal com que eu fui mora acima dos 2500 mts e nenhum sentiu porra nenhuma, quer dizer, mal estar algum, mesmo com alguns deles com aeróbico menor que o meu de acordo a nossas conversas......vai saber....


....................Escalada em rocha antes da expedição (Suesca, Cundinamarca).

.............................................................O autor

O autor viajou a convite da BigFoot camisinhas.

Abraços e obrigado por chegar até o final.

sábado, junho 12

Escalada em Rocha na Colombia

Faz um ano que conheci Jaime Paba, que tenho sido meu atual companheiro de escaladas. Jaime é colombiano, quase brasileiro pois já mora por aqui ha uns 15 anos, apesar de ter um sotaque ainda bem acentuado. É um escalador de 39 anos mas que começou a escalar a apenas 4 anos.
Nesse pouco tempo virou montanhista de corpo e alma, escalando sempre em São Luiz do Purunã (setor 1 , setor 2 e setor 3) , Anhangava, Morro do Canal. Também já tem em seu curriculo alguns treking e escaladas na Argentina, Colombia e Equador.

Mas na realidade quero mostrar umas fotos de escaladas no seu país natal. Jaime esteve no final do ano visitando sua família e aproveitou para escalar por lá com seu amigo Xanxerense Daniel Covatti (também morador de Curitiba).
Nessa viagem esteve no Equador escalando em Alta Montanha o vulcão Cotopaxi (5.987 mt) e Chimborazo (6.310 mt) que logo, logo, postarei essa viagem.



Paredão do Canyon do Chicamocha , 50 km de Bucaramanga

Nessa parede predominam mais escaladas esportivas e conforme relatos de nossos amigos, muito exigentes. Vale lembrar que na Colombia a graduação é baseada pelo mesma aplicada nos Estados Unidos.


"Subete la pata" 5.12b



"Subete la pata" 5.12b


"Subete la pata" 5.12b


"Subete la pata" 5.12b




Paredão em Suesca, 1h 30 da Capital Bogotá. Mais de 300 vias de escalada.


5.11 (não soube informar o nome)



5.11 (não soube informar o nome)


"Mataron a Gullich" 5.11a

Parque de escalada La Mojarra (a tilapia). Ao redor de 100 vias de escalada, a maioria delas esportivissima de todos os graus. Arenito e de facil acesso. Escalavel o ano inteiro.

quinta-feira, janeiro 28

PRAIA E ROCHA - Florianopolis - Barra da Lagoa

Barra da Lagoa - Vista da Trilha da Galheta


Verão, férias e praia....



Tá certo que normalmente minhas férias sempre são curtas e aproveitando viagens de trabalho, mas tudo bem. Como qualquer montanhista fanático, sempre quero aliar a diversão de minha família com minhas escaladas. Sempre acabo procurando praias que estão perto de montanhas ou falésias. Santa Catarina é o local ideal, praias lindas com otima infraestrutura e o melhor: paredes para pratica do montanhismo.

Bombinhas é uma praia conhecida por praticantes principalmente de mergulho, mas oferece para nós montanhistas no Canto Grande o Morro do Macaco e o Mirante com vias esportivas e vias moveis. Camburiu tem o Morro do Espinhal com vias até 100m, na praia brava com o setor Morcegos e suas vias esportivas e o Morro do Boi (na realidade esse point eu não conheço). Em Floripa temos a morro da cruz com varias vias bem no centro da cidade, mais deslocado e no continente a Pedra Branca com vias mais tradicionais e com um visual da Cidade de cair o queixo, e na Barra da Logoa com bolders, falésias e mais de 40 vias esse foi agora meu destino escolhido.



Caminho p/ a escalada em dois Setores



Peguei informações no site do ACEM (Associação Catarinense de Escalada e Montanhismo) http://www.acem.org.br/ . Apesar do Site explicar bem como chegar lá, a trilha é meio confusa perto das vias, tem muita erosão e gramados que perdem a marca da trilha e ainda para ajudar acabei cometendo o erro de ir de chinelo. Mas sofrimentos a parte, o local é fascinante a rocha é ótima com a opção ainda de dois setores bem distintos. O Setor 2 é o mais próximo e com mais vias, tanto vias grampedas como vias em moveis, mas não cheguei a escalar aí.


Setor 2 - Mais próximo c/ vias variadas e curtas


Estava sozinho e queria uma coisa mais trabalhada e emocionante, fui para o Setor 1. Ele é um pouco mais longe, porem suas paredes são maiores com uns 100m de altura, e vias de 2 e 3 cordadas. Em solitário não costumo me ariscar muito entrei na via mais clássica do local a Tardes de Outono (5º grau), com uma grampeação recente e próxima uma das outras é uma otima opção para iniciantes.

Setor 1 - A canaleta do Impossível - 7º


Visual do Setor 1


Base das Vias


A via tinha lances de agarras e aderências, muito bem segura e uma dica ótima de diversão certa. O visual de praia e mar torna mais prazeroso os momentos nela. Na cidade dos Ventos não poderia faltar a famosa brisa, por sinal estava bem forte, pois os dias anteriores havia chovido muito. Fiquei contente pelo tempo ter dado uma trégua e nem pensei duas vezes para ir para lá.


Via Tardes de Outono - 5º- Em solitário


Entrando na terceira cordada


Terceira Cordada


Rocha e Mar


quinta-feira, janeiro 7

Trekking no Himalaia - Rumo ao Acampamento Base do Everest



O Himalaia é um lugar mágico para todo montanhista, lá se encontra as maiores montanhas do mundo. Uma cadeia montanhosa que abrange sete países (Índia, China, Butão, Nepal, Paquistão, Myanmar, Afeganistão) e contém a montanha mais alta do planeta, o Monte Everest 8844. O nome Himalaia significa "morada da neve".


Campo Base 5364m e o Everest 8844m


Os Himalaias espalham-se, de oeste para leste, do vale do rio Indo ao vale do rio Bramaputra, formando um arco de cerca de 2.500 km de extensão e com uma largura variando de 400 km no oeste, na região da Caxemira-Tibete, a 150 km no leste, na região do Tibete-Arunachal Pradesh . (tirei isso da Wikipédia é claro...)
Só no Himalaia existem mais de 100 montanhas com mais 7200m, e pensar que fora dessa cordilheira a montanha mais alta do mundo é o Aconcágua com seus 6962m. (por isso a grande procura de montanhistas do EUA e Europa a esse pico).


Soraia e Gian no vale de Pheriche


Em Outubro e Novembro de 2009, durante 26 dias Giancarlo Castanharo e sua Esposa Soraia Giordani estiveram no Nepal, juntamente com outros dois amigos Fernando Bush e Tarquino Mota. Com o objetivo de chegar ao campo Base do Everest. Com certeza uma realização de sonho antigo.

Apaixonado por montanha , Cover (como é conhecido pelos amigos) já acumula um invejável currículos de montanhas e grandes travessias (Serra Fina, Alpha-Omega, Serra da Farinha Seca , Cordilheira Blanca no Peru, Torres Del Paine na Argentina, Salinas, .....).
Gentilmente ele me autorizou mostrar sua viagem aqui. Seu percurso foi de Luckla a 2.800 m até o "EBC" a 5.300 m percorrendo 110 km (ida e volta) e o ponto máximo atingido foi o Kala Pattar 5.600 m.

Cover e Ama Dablan 6814m


Região de Thokla 4700m



Gorakshep 5140 ao fundo Nuptse 7864


Lhotse

Everest e Lhotse


Everest e Lhotse no por do Sol


Gian (Cover) e o Everest




Essa foto tem "pinta" daquelas fotos de livros reflexões, e achei que combina com esta frase do Amyr Klink: "Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.

terça-feira, dezembro 29

Salinas - El Kabong

Três Picos (Pico Menor e Médio, Pico Maior e Capacete)


Três Picos em Nova Friburgo - RJ era um desejo antigo, durante muitos anos foi a maior parede de escalada do Brasil, com 700m de via a famosa Face Leste sempre foi o destino de escaladores apaixonados por escalada de aventura. Lá entendemos o que é a escalada de aventura, proteções fixas com distancias de 10 a 30 metros de intervalo entre elas. Você tem que estar bem não só tecnicamente, mas também psicologicamente, pois a altura da parede junto com a pouca proteções, dão um tom mais assustador ao local.


No feriado de Corpus Christi (11/06/09) decidi fazer a empreitada, eu e Marcelo , resolvemos percorrer mais de 1000Km de carro para escalar esse famoso pico. Infelizmente o tempo acabou prejudicando nossos planos, pois o planejado era ficar 4 dias escalando, mas o mal tempo adiou nossos planos. Já na viagem que resolvemos fazer a noite (Curitiba a Friburgo) a chuva nos castigou quase o percurso inteiro (12 horas). Quando passamos pelo Rio de Janeiro nem tínhamos mas esperança de pegar tempo bom.





Foto Tradicional da Serra dos Orgãos em Teresopolis



Conforme fomos aproximando da região dos Três Picos o tempo ia ficando firme. Isso nos animou, mas sabíamos que teríamos que aproveitar o pouco tempo para escalar, pois logo logo a chuva e o mal tempo chegaria. Nem bem chegamos no abrigo do Paulo Mascarin, montamos a barraca e sem dormir (dirigimos a noite inteira) fomos para primeira via Sergio Jacob (150m-D2 5º V E3) no Capacete, para aclimatarmos com o local.



Abrigo República Três Picos - Meu amigo Paulo Mascarin


Pico Maior e Capacete (direita)
A via tinha sido regrampeda recentemente para ficar mas segura, mas mesmo assim suas costuras eram bem distantes. Fui guiando e logo atrás Marcelo passa por mim e sai guiando a proxima cordada. Nesse dia não estávamos bem, pois sem dormir ficamos mais cansados e desatenciosos e nem escalamos a ultima cordada.

Segunda Cordada da Sergio Jacob


Acabamos ficando inseguros para entrar no dia seguinte na Face Leste. Os motivos eram muitos: não conhecíamos a via, o rapel pelo via Sylvio Mendes é um pouco difícil principalmente se voltássemos a noite, o risco de pegarmos chuva era muito evidente, ninguém aconselha a rapelar a própria via Leste (a linha de rapel não segue a linha da escalada) e por nosso desempenho na Sergio Jacob deixou-nos um pouco inseguros.
Mas nessa noite conhecemos um pessoal do Rio de Janeiro e nos convidaram a acompanhar a mesma escalada que eles iriam fazer no dia seguinte.



Bom achamos mais sensato ir com eles (Roberto Groba, Fred Zavan e Andreza), levantamos cedo e fomos ao Capacete na via El Kabong (450m - D3 5 VI E2) . Já antes de entrarmos na parede uma fino chuvisco começou, mas não chegou a ser preocupante e começamos a escalada.


Trilha do Vale dos Deuses

Segunda Cordada
A via estendia em 11 cordadas sendo as primeiras 3 cordadas em aderência. Após isso entrava no crux (lance mais dificil) da via (6 grau) bem interessante e a próxima cordada outro lance de 6 grau em lance delicado de pequenos cristais.
Marcelo nas Aderências

Marcelo entrando no crux

Estava tudo indo bem até que na sétima cordada começou a chuviscar de novo. Mas agora a preocupação era maior pois ainda faltava muito para acabar e ninguém queria ter que voltar pela mesma via. Apresamos a escalada, mas mesmo assim na penúltima cordada caiu para valer a chuva. Essa cordada era um lance fácil de 4grau em uma fenda de mão com bastante local para proteção móvel. Mas a ultima cordada foi tensa, pois a agua nesse momento escorria na parede trazendo sujeira e barro para baixo, o lance era um terceiro grau, mas o detalhe era que ele percorria em aderência uns 40metros sem proteção alguma. Realmente subi pensando que eu a qualquer momento iria cair, pois a parede era um sabão.

Roberto Groba , Fred e Andreza na Frente e Marcelo logo atras

Lance da sexta cordada

Logo passado o susto, fomos ao rapel. Nesse momento a temperatura havia caído drasticamente (5 graus) e o rapel corria pela via Sergio Jacob, seriam 3 lances de rapel de 50m com corda dupla. A linha da via era uma saliência natural aonde corria a agua da chuva, e nessa altura já tinha virado uma cachoeira. Estávamos com anoraque mas as pernas, mãos e cabeça estavão totalmente molhadas e expostas, mal sentia minhas mãos. Foi cansativo de mais, pois a corda duplica seu peso e o atrito dela molhada aumentava a resistência em puxa-la para baixo. Mas deu tudo certo e já a noite estávamos na lareira tomando um vinho e jogando conversa fora.

Um merecido vinho na lareira

Como prevíamos a chuva era inevitável e tomamos a decisão certa, pois se tivéssemos pego essa chuva na Leste com certeza o sofrimento seria muito maior. No dia seguinte voltamos para Curitiba, sem fazer tudo que planejamos, mas felizes por termos a oportunidade de conhecermos essa região linda e suas paredes fabulosas.